E quando nossos filhos se sentem tristes?
Você é capaz de se lembrar do momento em que viu seu filho triste pela primeira vez? Eu sou. Era uma quinta-feira, o quinto dia de adaptação escolar. Ao buscar minha filha na escola me deparei com uma pequena menininha cabisbaixa. Ao ser chamada, ela pegou sua mochila e olhando para o chão veio andando lentamente em minha direção. Eu, tentando reforçar as conquistas do dia, não me permiti encarar aquela tristeza de frente. Afinal, era um momento de adaptação para mim também. E então, ela me surpreendeu com a fala mais doída e mais sincera: “-Mamãe, por que tenho que ir para a escola? Não gosto da escola. Fico sozinha na escola mamãe”. Os seus olhos se encheram de água e vê-la assim, foi como “partir meu coração".
Decidi compartilhar essa experiência porque em algum momento nossos filhos se sentirão tristes. Sim, eles sentirão o peito apertar, as cores ao redor perderem a intensidade, a energia diminuir e as lágrimas escorrerem pelo rosto. Viver isso com eles pode ser difícil e doloroso. Mas, devemos ter clareza de que a tristeza é um sentimento natural e saudável para o desenvolvimento emocional das crianças.
Diante dessa experiência podemos escolher a forma como iremos agir. E o caminho escolhido pode influenciar como nossos filhos lidarão com seus sentimentos durante sua vida.
Vamos pensar sobre alguns pontos importantes?
Tristeza e julgamento
Primeiramente, é muito importante não julgar o motivo da tristeza de seu filho. Julgamentos de valor (se o motivo é válido ou não) não permitem que a criança se sinta acolhida, ouvida e compreendida.
Todo sentimento tem valor e precisa ser expresso.
Assim, não precisamos entender (naquele momento), nem concordar ou discordar. Precisamos ouvir. E, quem sabe, dialogar sobre isso em outro momento.
Desvios e distrações não levam a tristeza embora
Precisamos permitir o sentir! Como pais tendemos a querer desviar a atenção, distrair, fazer com que passe logo! Mostramos um brinquedo. Levamos até à janela. Cantamos uma música. Mas, ao agirmos assim, não fazemos com que a tristeza desapareça. Na verdade, ela fica abafada, camuflada, deslocada e pode reaparecer de outra forma, em outro momento e inclusive, com outra intensidade.
Quando tentamos distrair ou tirar o foco das crianças de seus sentimentos, elas aprendem que sentir é ruim. Ou até, que ficamos incomodados quando eles se sentem tristes. Portanto, é importante permitir que a criança sinta e também, aceitar as consequências de seus sentimentos. O choro, por exemplo, não deve ser reprimido nem repreendido. Afinal, o choro pode lavar a tristeza, pode aquecer o corpo que estava frio e pode gerar alívio para o recomeço.
Quantas vezes já presenciamos ou até, vivenciamos cenas onde um adulto ordena que uma criança pare de chorar? Ou afirma categoricamente que “chorar é feio”? Ás vezes, temos reações reflexas diante de um choro que consideramos sem razão. Temos a tendência de classificar como “birra” ou “manha”. Mas, o choro é sempre a expressão de algum sentimento. Pode ser frustração, raiva, tristeza ou desamparo. E assim, mesmo que naquele momento não sejamos capazes de acolher nossa criança, não devemos impedi-la de se expressar.
E então, como posso ajudar?
O importante é reconhecer empaticamente o que nossos filhos sentem! E ajudá-los a entender o que estão sentindo. Que tal ajudá-los a perceber a tristeza em seu próprio corpo? Como eles se sentem? Como está a sua energia? Tudo está sem graça? Sentem frio? Aquele aperto no peito? Vontade de chorar?
Crianças pequenas ainda não conseguem racionalizar o que sentem e, portanto, não são capazes de colocar em palavras os seus sentimentos. Mas, podemos ajudá-los a compreender o que estão sentindo. Podemos colocar em palavras por eles. Assim, colocando-nos em seu lugar, podemos tentar traduzir seu emaranhado de sensações e dessa forma, mostraremos a eles que nos importamos, que compreendemos e que respeitamos aquele momento.
Podemos e devemos confiar em nossos filhos! Eles possuem seus próprios recursos para lidar com o que sentem e só precisam descobrir como fazê-lo. Mas, se mesmo assim, nos sentirmos inseguros sobre como agir; podemos simplesmente, nos abaixar, olhar em seus olhos e os abraçar. Abraçar com toda força e amor!
P.s: Naquele dia, em que vi minha filha triste pela primeira vez, precisei de um tempo para elaborar a experiência. E então, à noite, antes de colocá-la no berço, eu e meu marido sentamos com ela, em seu quarto, com as luzes baixas e conversamos. Lembro-me claramente de dizer para ela que entendia o que ela sentia e que experiências novas podem sim, nos fazer sentir medo. Que tudo bem ela se sentir assim. Contei sobre algumas experiências em que me senti sozinha e com medo. Falei que era tudo novo para ela e, para nós também. Falei do orgulho que sentia dela e do quanto ela estava indo bem. Nesse momento, ela engasgou profundamente e chorou de soluçar. Choramos juntas!

Fonte: http://www.babycouture.in/blog/the-dos-and-donts-of-dropping-off-your-kids-at-preschool/
Iara Castro
Psicóloga graduada pela Universidade Federal de MG com especialização em Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Dom Cabral e formação em Consultoria de Sono Materno-Infantil pela IMPI.